TW: menção de dor,

1000039825.jpg

Nunca houve medo de escuro. Nunca, nem mesmo nos primeiros anos , os únicos em que ela havia sido permitida a ser como criança, a garota teve medo de escuro . Quando olhava para os olhos de seu pai, vermelhos como fogo, sempre entendeu que havia coisas piores lá fora para ter medo, e que o escuro era seguro. Ele era seguro porque poucos se aventurariam a entrar neles, então para ela, desde pequena, o escuro era carinho e aconchego, não medo e terror.

A primeira vez que abriu seus olhos quando estava na frota, a primeira noite em que realmente dormiu, ela acordou com uma faca em sua garganta, e demorou a notar que era a sua própria mão que segurava ela e não alguém que havia invadido o seu quarto, alguém que a queria morta. Demorou a notar que alguma coisa em seu fundo queria ela mesma morta — talvez fosse a decepção de deixar seus dois grandes amores morrerem sem ela poder ter feito nada.

O primeiro amigo que fez fora daqueles que seus ancestrais tinham levado era alguém que poderia morrer mais rápido do que qualquer um que a Zafira havia treinado para lutar . Era um humano, olhos sinceros demais, um sorriso doce, e porra, Zafir teve a certeza que ele iria morrer antes dela, teve a certeza que o enterraria também, mas o seu adeus a ele veio diferente. O seu adeus veio ao ve-lo pedir um afastamento. O humano frágil, doce, e que sempre errava seu nome foi a primeira pessoa que Zafir deus adeus sabendo que poderia vê-lo novamente , e não seria no espaço espiritual.

Alex foi a primeira memória que fez Zafirwen sorrir antes de dormir.

Mas uma boa memória não era o suficiente para cuidar de fantasmas que dormiam com ela, então quando acordou sendo acorrentada,  chorando no chão da sala de comando, com nomes que deveria esquecer na ponta da sua língua, Zafir sabia que era amaldiçoada por fantasmas, e que eles não viviam no escuro como outras criatura achavam.

Ficou no escuro por dias, sem comida por dias, até ser jogada em uma sala fria e ter visto o diabo a sua frente, mas não era a primeira vez, então Zafir sorriu quando o viu, o aceitou, com suas mentiras, análises e acordos, e foi para uma sala em que tinha que mexer em papéis, e ser amis administrativa do que foi toda sua vida.

O diabo — palavra que aprendeu com humanos, uma criatura vil e tentadora —  havia feito seu trabalho, e alguns dias — vários — se passaram, e logo Zafir havia voltado para seu trabalho.

Talvez fosse estranho, mas a guerreira gostava de mexer na mente, de saber os segredos que os outros guardavam, mistérios que sussurravam para serem descobertos, então voltou feliz ao seu papel de conselheira, mesmo quando estava sendo em uma posição inferior, mesmo quando estava entrando em uma frota que não conhecia ninguém. Mesmo quando estava iniciando tudo de novo porque sua mente não estava inteira.

Seu pai a teria deserdado se soubesse o quão perdida sua mente estava.